quinta-feira, 11 de junho de 2020

Se estivesse entre nós, o padre Paulo Aripe, "Potrilho", completaria 84 anos

Paulo Aripe
           A voz de Paulo Aripe sempre soou forte. Declamando versos campeiros, oficiando uma missa, conversando com quem queria saber alguma coisa. Aripe nasceu no dia 11 de junho de 1936, em Uruguaiana. "No Beco das Sete Facadas, em frente à Sanga do Morto, ao lado do Bueiro do Laçaço e junto ao Bolicho do Vesgo. Hoje é Flores da Cunha o nome da rua" – contava ele. Foi ordenado padre, por Dom Luís Felipe de Nadal, quando saiu do seminário de Viamão.

           “Haripe”, em árabe, é cavalo de corrida. O apelido de Potrilho estava predestinado, surgiu quando ainda era seminarista, "filhote de padre". Pilchado para a missa, o Potrilho sempre foi um taura gaudério, e o sotaque acentuado de quem vive na região da Fronteira completava a figura que parecia saída dos poemas e trovas que ele compunha, desde os tempos do seminário.

           Entre 1962 e 1963, o Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, deu um novo sentido à liturgia da missa. A celebração deixou de ser em latim, passou a ser rezada na língua de cada país, ou região, e aumentou a participação dos fiéis. E permitiu a utilização de músicas e elementos culturais de cada povo ou etnia. Foi por essa época que nasceu a Missa Crioula. O jovem Aripe, que gostava de frequentar CTGs e tinha dezenas de pastas com "quadras campeiras", não esperou muito. Tirou todos os sons que queria da gaita-de-boca, seu instrumento. Pesquisou ritmos gauchescos para cada parte da missa, descrita em versos. No dia 28 de fevereiro de 1963, em Alegrete, celebrou a primeira Missa Crioula. Inaugurou o ritual hoje reverenciado por milhares de gaúchos. Oficialmente, a Missa Crioula recebeu aprovação eclesiástica no dia 7 de abril de 1967, em documento assinado por Dom Vicente Scherer, então arcebispo de Porto Alegre.

Cálice de guampa na missa

          Sobre as pilchas gaúchas, Paulo Aripe vestia a casula, único paramento litúrgico. Uma cruz, entrelaçada por dois lenços, um branco e um vermelho, unindo inimigos políticos, no momento de oração. Sobre o altar deixava em destaque o cálice, feito de ouro e de guampa, obra da Metalúrgica Abramo Eberle, presente escolhido como lembrança da ordenação sacerdotal. 

         No início, o cálice provocou polêmica, mas acabou aceito. Era colocado solenemente sobre o pala rio-grandense que cobria a mesa, junto a uma cuia revestida por um bordado de prata, presente de Dom Felipe de Nadal. Um candeeiro substituiu os castiçais com velas, relíquia do século retrasado. Cambonas, também de guampa, eram para a água e o vinho. No entorno, apetrechos de lida campeira, como arreios, laços e bandeiras.

Agradecimento especial pela colaboração nesta matéria, feita em 2017, quando completou 50 anos da celebração da 1ª Missa Crioula, ao Padre Valdir Antonio Formentini.

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