Rogerio Bastos - Noticias do Tradicionalismo Gaucho

"A autenticidade é maior diferença entre os que são e os que querem ser!" Angelo Franco

Promessa é divida. Prometi aos alunos do Cfor que publicaria a Tese para eles... aqui vai:


BARBOSA LESSA
1º. Congresso Tradicionalista
(Santa Maria, Julho de 1954).
   
1954

            1954. Porto Alegre. Um cidadão do interior quer entrar no Cinema Ritz mas é barrado porque veste botas e bombachas.

            Interior. Comunidades fragmentadas por antagonismos partidários, antes “maragatos”  e “republicanos”, agora seus descendentes. Marginalização social do trabalhador do campo, que não pode entrar no “Clube Comercial”, da elite, nem no “Clube Caixeiral”, da classe média; privado de uma forma decente de lazer, só conhece os bochinchos e chinedos de campanha.

            Rio Grande do Sul. Começara há pouco a invasão cultural norte-americana através do cinema, disco, coca-cola e outras pontas-de-lança da sociedade de consumo. No âmbito interno, crescimento demográfico e ascensão política das colônias alemãs e italianas.

            Gradativa perda das raízes culturais pastoris e luso-brasileiras. Mas, sete anos antes meia-dúzia de ginasianos fundara em Porto Alegre o “35”, primeiro CTG (Centro de Tradições Gaúchas), e no decorrer desse tempo haviam surgido agremiações congêneres em vários pontos do Estado. Era uma tentativa, intuitiva e ainda hesitante, de salvaguardar a cultura nativa.

            Cidade de Santa Maria. Representantes desses vários CTGs reúnem-se, por primeira vez, buscando um fundamento racional e uma diretriz filosófica para o movimento que vinham empreendendo. Barbosa Lessa, um dos ginasianos pioneiros, agora com 24 anos de idade, apresenta em plenário a tese definidora. Em decorrência, o movimento parte para uma linha de massificação popular, menos elitizante, menos intelectualizada. O tradicionalismo, a partir daí, explodiria em dimensão fantástica, até se consagrar como o maior movimento popular de Cultura em todo o mundo ocidental: 2 milhões de participantes ativos.



1979


            1979. Porto Alegre. O traje regional gaúcho num lugar de honra dentre os símbolos do Rio Grande do Sul.

            Interior. Fandangos e bailões proporcionam um divertimento sadio também para as camadas humildes, e a sede de CTG torna-se uma expressão comunitária acima das rivalidades partidárias e do conflito de gerações.

            Rio Grande do Sul. A tradição pastoril torna-se um denominador comum para os rio-grandenses das mais diversas origens étnicas, reforçando a cultura regional em face das arremetidas alienígenas. Um Estado com fisionomia inconfundível no contexto nacional.

            São mais de 400 CTGs, em todos os municípios do Estado e, também, acompanhando as migrações de rio-grandenses para Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso do Sul. Churrascarias gaúchas ao longo das BRs de todo o País. CTGs também em Curitiba, Rio, Brasília, até a longínqua São Luiz do Maranhão.

            Milhares de esportistas campeiros integrando os Piquetes de laçadores para participação em rodeios, alguns destes com repercussão internacional. Centenas de músicos profissionais animando fandangos, dominando certos horários radiofônicos e - alguns - constituindo-se em campeões de vendagem de disco no mercado nacional. Milhares de declamadores de poesia regionalista servindo-se do esquecido poder da Comunicação Oral. Uma florescente indústria de construção de “galpões” tradicionalistas, mobiliário típico e decoração campeira. Indústria de ponchos, palas, cuias, arreios e souvenirs. Todo um mercado de produção e consumo desenvolvido à sombra dessa nova realidade psicossocial. Um fenômeno que já não pode ser mais ignorado e precisa ser estudado.



            Na vida humana, a sociedade - mais que o indivíduo - constitui a principal força na luta pela existência. Mas, para que o  grupo social funcione como unidade, é necessário que os indivíduos que o compõem possuam  modos de agir e de pensar coletivamente.

            Isto é conseguido através da “herança social” ou “cultural”. Graças à cultura comum, os membros de uma sociedade possuem a unidade psicológica que lhes permite viverem em conjunto, com um  mínimo de confusão. A cultura, assim, tem por finalidade adaptar o indivíduo não só ao seu ambiente natural mas também ao seu lugar na sociedade. Toda cultura inclui uma série de técnicas que ensinam ao indivíduo, desde a infância, a maneira como comportar-se na vida grupal. E graças à Tradição, essa cultura se transmite de uma  geração a outra, capacitando sempre os  novos indivíduos a uma pronta integração na vida em sociedade.

I - A DESINTEGRAÇÃO DE NOSSA SOCIEDADE

            A cultura e a sociedade ocidental estão sofrendo um assustador processo de  desintegração. Incluídas nesse panorama geral, a cultura e a sociedade de quaisquer dos povos ocidentais necessariamente apresentam, com maior ou menor intensidade, idêntica dissolução. É nos grandes centros urbanos que esse fenômeno se desenha mais nítido, através das estatísticas sempre crescentes de crime, divórcio, suicídio, adultério, delinqüência juvenil e outros índices de desintegração social.

            Analisando tais circunstâncias, mestres da moderna Sociologia chegaram à conclusão de que os problemas sociais cruciantes da atualidade são causados ou incentivados pelo relaxamento do controle dos costumes e noções tradicionais de cada cultura.

II - OS DOIS FATORES DE DESINTEGRAÇÃO

            Sociólogos de renome afirmam que a desintegração social, característica de nossa época, é devida a dois fatores predominantes:

            Primeiro: o enfraquecimento do núcleo das culturas locais.

            Segundo: o desaparecimento gradativo dos “Grupos Locais”  como unidades transmissoras de cultura.

            Analisemos, então, esses dois fatores.

            a) O ENFRAQUECIMENTO DO NÚCLEO CULTURAL

            A cultura de qualquer sociedade se compõe de duas partes.

            Há um núcleo sólido, de certa forma estável, constituído pelo PATRIMÔNIO TRADICIONAL. Nesse núcleo se concentram aqueles inúmeros hábitos, princípios morais, valores, associações e reações emocionais partilhados por TODOS os membros de determinada sociedade (como a linguagem, a indumentária típica, os princípios fundamentais de moral, etc.), ou ainda, por TODOS os membros de certas categorias de indivíduos, dentro da sociedade (como as ocupações reservadas só às mulheres ou só aos homens, as reações emocionais típicas de todos os velhos ou de todas as crianças, bem como os conhecimentos técnicos reservados aos ferreiros, aos médicos, aos agricultores, etc.). Tais elementos culturais contribuem para o bem-estar da coletividade, pois o indivíduo fica sabendo como comportar-se em grupo, e qual o comportamento que pode esperar dos outros (“expectativas de comportamento”). Em suma: o cerne cultural dá, aos indivíduos, a unidade psicológica essencial ao funcionamento da sociedade.

            Mas, cercando o núcleo, existe uma zona fluída e instável, constituída por elementos culturais chamados, em sociologia, Alternativas, e que são traços partilhados apenas por ALGUNS indivíduos, representando diferentes reações às mesmas situações, ou diferentes técnicas para alcançar os mesmos fins. (Certa pessoa viaja a cavalo, fazendo o mesmo percurso que outra prefere realizar em carroça; certa pessoa sente-se tremendamente ofendida se alguém faz “crítica” a um defeito físico seu, enquanto outra se comporta resignadamente face a tais críticas; etc.)

            É esta zona de Alternativas que permite à cultura crescer e acomodar-se aos avanços de uma civilização.  Evidentemente, quanto maior for o entrechoque ou contato com culturas diversas, maior será a possibilidade de adoção de novas Alternativas, por parte dos membros de uma sociedade.

            Quando a cultura de determinado povo é invadida por novos hábitos e novas idéias, duas coisas podem ocorrer.  Se o patrimônio tradicional dessa cultura é coerente e forte, a sociedade somente tem a lucrar com o referido contato, pois sabe analisar, escolher e integrar em seu seio aqueles traços culturais novos que, dentre muitos, realmente sejam benéficos à coletividade. Se, porém, a cultura invadida não é predominante e forte, a confusão social é inevitável: idéias e hábitos incoerentes sufocam o núcleo cultural, desnorteando os indivíduos e fazendo-os titubear entre as crenças e valores mais antagônicos. Quem mais sofre com essa confusão social - acentua o sociólogo Donald Pierson - são as crianças e adolescentes, os responsáveis pela sociedade do porvir.

            Crescendo nessas circunstâncias, a criança não sabe como agir, não é capaz de assumir, em seu espírito, qualquer expectativa clara de comportamento. E assim se originam, entre outros, os problemas de delinqüência juvenil, resultados de uma desintegração social.

            Pois bem. Devido ao surto surpreendente do maquinismo, em nossos dias, bem como à facilidade de intercâmbio cultural entre os mais diversos povos, observa-se que o núcleo das culturas locais ou regionais vai se reduzindo gradativamente, a ponto de se ver sufocado pela zona das Alternativas. E a fluidez naturalmente se acentua, à medida que as sociedades mantêm novos contatos com traços culturais diferentes ou antagônicos, introduzidos por viajantes ou imigrantes, ou difundidos por livros, imprensa, cinema, etc. Nossa civilização, antes alicerçada num núcleo sólido e  coerente, transformou-se numa variedade de Alternativas entre as quais os indivíduos têm que escolher. Sem ampla comunidade de hábitos e de idéias, porém, os indivíduos não reagem com unidade a certos estímulos, nem podem cooperar eficientemente. Daí os conflitos de ordem moral, que afligem o indivíduo, fazendo-o atarantar-se sem saber quais as opiniões e os valores que merecem acatamento.

            Esta insegurança reflete-se imediatamente na sociedade como um todo e, consequentemente, no Estado. Pois, conforme ensina o sociólogo Ralph Linton, “embora os problemas de organizar e governar Estados nunca tenham sido perfeitamente resolvidos, uma coisa parece certa: se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com a vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente; mas, se isso não se verificar, nenhuma elaboração de padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos”.

b) O DESAPARECIMENTO DOS “GRUPOS LOCAIS”

            As duas unidades sociais mais importantes, como transmissoras de culturas, são a “família” e o “grupo local”. Através dessas duas unidades o indivíduo recebe, com maior intensidade, a sua “herança social”.
           
            São exemplos de “grupo local”, em nossa sociedade, o “vizindário” ou “pago” das populações rurais, bem como as pequenas vilas do interior, ou ainda (um exemplo do passado) os bairros com vida-própria, das cidades de há alguns anos atrás.

            Por “grupo local” entende-se o agregado de famílias e de indivíduos avulsos que vivem juntos em certa área, compartilhando hábitos e noções comuns.

            Embora não tenha organização formal (como o distrito ou o município), o “grupo local” é unidade social autêntica. O “pago”, por exemplo, influencia a vida de seus membros, estabelece limites à vida social (quais as famílias que podem ser convidadas para as festas), mantém elevado grau de cooperação entre os indivíduos, pois todos devem se auxiliar (antigos trabalhos de puxirão) e cada qual tem consciência desse dever de auxílio-mútuo.  O indivíduo conhece perfeitamente os costumes e os princípios morais instituídos pelo seu “pago”, além disso, há um conhecimento íntimo entre os membros de um mesmo “pago” (conhecem-se até os animais e objetos pertencentes aos vizinhos). Todas essas  circunstâncias influem para que o “grupo local” se constitua numa potente barragem para as transgressões à ordem pública ou à moral (furto, sedução, adultério, etc.). Ademais, embora não tenha um meio de reação formal (como a polícia), o “grupo local” encerra grande força punitiva, através de medidas como a perda de prestígio, o ridículo, o ostracismo.

            Certamente já depreendemos, então, a grande importância de que se reveste o “grupo local” para assegurar a normalidade da vida em comum, segundo os padrões culturais instituídos pelo grupo.

            Acresce notar o seguinte: o integrar-se a um “grupo local” constitui verdadeira NECESSIDADE PSICOLÓGICA para o indivíduo normal. Este precisa de uma unidade social coesa, maior do que a família, dentro da qual sinta que outros indivíduos são seus amigos, que compartilham suas idéias e hábitos. Tanto é verdade que o indivíduo se sente inseguro quando se vê só ou entre estranhos.

            Pois bem. O enfraquecimento da vida grupal - conforme acentuou Ralph Linton - é outra característica de nossa época. As unidades sociais pequenas estão gradativamente desaparecendo, e cedendo lugar às massas de indivíduos. Nas zonas rurais, os “grupos locais” ainda conservam um pouco de sua função como portadores de cultura; mas, em geral - devido ao afluxo de Alternativas - os jovens discordam dos padrões culturais antigos; acontece, porém, que a sociedade mais ampla - com a qual os jovens entram em contato por meio da imprensa, rádio e cinema - ainda não têm padrões coerentes de vida para oferecer-lhes. Daí a insegurança que começa a notar-se em nossa sociedade rural.

            Se nas zonas rurais percebe-se apenas uma insegurança incipiente, apenas o  relaxamento das forças do “grupo local” - o que se percebe nas cidades é a desintegração total dessas forças. A mudança de padrões culturais, em nossos dias, tem sido tão rápida que, em geral, o adulto de hoje ainda teve a sua infância condicionada à vida segundo as bases do “grupo local”. Ensinaram-lhe a esperar de seus vizinhos encorajamento e apoio moral;  e quando esses vizinhos se afastam, o indivíduo sente-se perdido. Ele escolhe entre muitas Alternativas mas não dispõe de meios para estabelecer contato com outros que tenham feito escolha semelhante.

            Sem o apoio de um grupo que pense do mesmo modo, é-lhe impossível sentir-se seguro a respeito de qualquer assunto. E assim o indivíduo torna-se presa fácil de qualquer propaganda insistente. (Quer seja a má propaganda, quer seja a boa propaganda).

            Por isso, Ralph Linton escreveu: “A cidade moderna, com sua multiplicidade de organizações de toda a espécie, dá a imagem de uma massa de indivíduos que perderam seus “grupos locais” e estão tentando, de maneira tateante, substituí-los por alguma outra coisa. De todos os lados surgem novos tipos de agrupamentos, mas até agora nada foi encontrado, que pareça capaz de assumir as principais funções do grupo local. Ser membro do Rotary Club, por exemplo, não substitui adequadamente a posse de vizinhos e amigos tal como se verifica nos grupos locais”.

           
O MOVIMENTO TRADICIONALISTA RIO-GRANDENSE

            O movimento tradicionalista rio-grandense - que vem se desenvolvendo, desde 1947, com características especialíssimas - visa precisamente combater os dois reconhecidos fatores de desintegração social. O fundamento científico deste movimento encontra-se na seguinte afirmação sociológica: “Qualquer sociedade poderá evitar a dissolução enquanto for capaz de manter a integridade de seu núcleo cultural. Desajustamentos, nesse núcleo, produzem conflitos entre os indivíduos que compõem a sociedade, pois estes vêm a preferir valores diferentes, resultando então a perda de unidade psicológica essencial ao funcionamento eficiente de qualquer sociedade”.

             Através da atividade artística , literária, recreativa ou esportiva, que o caracteriza - sempre realçando os motivos tradicionais do Rio Grande do Sul - o Tradicionalismo procura, mais que tudo, reforçar o núcleo da cultura rio-grandense, tendo em vista o indivíduo que tateia sem rumo e sem apoio dentro do caos de nossa época.

            E, através dos Centros de Tradições Gaúchas, o Tradicionalismo procura entregar ao indivíduo uma agremiação com as mesmas características do “grupo local” que ele perdeu ou teme perder: o “pago”. Mais que o seu pago, o pago também das gerações que o precederam.

            Cada Centro de Tradições Gaúchas, em si, é um novo “Grupo Local”. E à medida que surgem novos Centros, em todos os municípios do Rio Grande do Sul, vai o Tradicionalismo confundindo-se com o Regionalismo, pois opera para que todos os indivíduos que compõem a Região sintam os mesmos interesses, os mesmos afetos, e desta forma reintegrem a unidade psicológica da sociedade regional. E com isso o Tradicionalismo pode se transformar na maior força política do Rio Grande do Sul. Para evitar confusão de “política” com “política partidária”, expressemo-nos assim: o Tradicionalismo pode constituir-se na maior força a auxiliar o Estado na resolução dos problemas cruciais da coletividade.

            Para compreendermos tal afirmativa, basta repetir a transcrição já feita: “Se os cidadãos tiverem interesses e culturas comuns, com a vontade unificada que daí advém, quase qualquer tipo de organização formal de governo funcionará eficientemente. Mas, se isso não se verificar, nenhuma elaboração de padrões formais de governo, nenhuma multiplicação de lei, produzirá um Estado eficiente ou cidadãos satisfeitos”.


O SENTIDO DO TRADICIONALISMO

            O Tradicionalismo consiste numa EXPERIÊNCIA do povo rio-grandense, no sentido de auxiliar as forças que pugnam pelo melhor funcionamento da engrenagem da sociedade. Como toda experiência social, não proporciona efeitos imediatamente perceptíveis. O transcurso do tempo é que virá dizer do acerto ou não desta campanha cultural. De qualquer forma, as gerações do futuro é que poderão indicar, com intensidade, os efeitos desta nossa - por enquanto - pálida experiência. E ao dizermos isso, estamos acentuando o erro daqueles que acreditam ser o Tradicionalismo uma tentativa estéril de “retorno ao passado”. A realidade é justamente o oposto: o Tradicionalismo constrói para o futuro.

            Feitas estas considerações preliminares, podemos tentar um conceito do movimento tradicionalista. E estão diremos:

            “Tradicionalismo é o movimento popular que visa auxiliar o Estado na consecução do bem-coletivo, através de ações que o povo pratica (mesmo que não se aperceba de tal finalidade) com o fim de reforçar o núcleo de sua cultura; graças ao que a sociedade adquire maior solidez e o indivíduo adquire maior tranquilidade na vida em comum” .


CARACTERÍSTICAS DO TRADICIONALISMO

            Mais do que uma teoria, o Tradicionalismo é um movimento. Age dentro da psicologia coletiva. Sua dinâmica realiza-se por intermédio dos Centros de Tradições Gaúchas, agremiações de cunho popular que têm por fim estudar, divulgar e fazer com que o povo “viva” as tradições rio-grandenses.

            O Tradicionalismo deve ser um movimento nitidamente POPULAR, não simplesmente intelectual. É verdade que o Tradicionalismo continuará sendo compreendido, em sua finalidade última, apenas por uma minoria intelectual. Mas, para vencer, é fundamental que seja sentido e desenvolvido no próprio seio das camadas populares, isto é, nas canchas de carreiras, nos auditórios das radioemissoras, nos festivais e bailes populares, nas “Festas do Divino”  e de “Navegantes”, etc.

            Para alcançar seus fins, o Tradicionalismo serve-se do Folclore, da Sociologia, da Arte, da Literatura, do Esporte, da Recreação, etc. Tradicionalismo não se confunde, pois, com Folclore, Literatura, Teatro, etc. Tudo isso constitui MEIOS para que o Tradicionalismo alcance seus fins. Não se deve confundir o Tradicionalismo, que é um movimento, com o Folclore, a História, a Sociologia, etc. que são ciências. Não se deve confundir o folclorista, por exemplo, com o tradicionalista; aquele é o estudioso de uma ciência, este é o soldado de um movimento. Os tradicionalistas não precisam tratar cientificamente o folclore; estarão agindo eficientemente   se se servirem dos estudos dos folcloristas, como base de ação, e assim reafirmarem as vivências folclóricas no próprio seio do povo.

 AS DUAS GRANDES QUESTÕES DO TRADICIONALISMO

            Existem duas questões importantíssimas, que de maneira nenhuma podem ser descuidadas pelos tradicionalistas, sob pena deste esforço cultural se desenhar, de antemão, como uma experiência fracassada.

a) ATENÇÃO ESPECIAL ÀS NOVAS GERAÇÕES

            Deve o Tradicionalismo operar com intensidade no setor infantil ou educacional, para que o movimento tradicionalista não desapareça com a nossa geração. Porque nós - os Tradicionalistas da primeira arrancada - entramos para os Centros de Tradições Gaúchas movidos pela necessidade psicológica de encontrar o “grupo local”  que havíamos perdido ou que temíamos perder. Mas as gerações novas não chegaram a conhecer o grupo local como unidade social autêntica, e somente seguirão nossos passos por força de impulsos que a educação lhes ministrar.

            Por isso, não temo afirmar que o dia mais glorioso para o movimento tradicionalista será aquele em que a classe dos Professores Primários do Rio Grande do Sul - consciente do sentido profundo desse gesto, e não por simples atitude de simpatia - oferecer seu decisivo apoio a esta campanha cultural.

            Aliás, não se concebe que as Escolas Primárias continuem por mais tempo apartadas do movimento tradicionalista. Pois a maneira mais segura de garantir à criança o seu ajustamento à sociedade é precisamente fazer com que ela receba, de modo intensivo, aquela massa de hábitos, valores, associações e reações emocionais - o patrimônio tradicional, em suma - imprescindíveis para que o indivíduo se integre eficientemente na cultura comum.

b) ASSISTÊNCIA AO HOMEM DO CAMPO

            A idéia nuclear das Tradições Gaúchas é a figura do campeiro das nossas estâncias. Por isso, é sumamente necessário que o Tradicionalismo ampare social e moralmente o homem do campo, para que um dia não se chegue à situação paradoxal de manter-se uma Tradição de fantasia, em que se tecessem hinos de louvor ao “Monarca das Coxilhas”,  ao “Centauro dos Pampas”, e que esse gaúcho fosse um desajustado social, um pária lutando febrilmente pela própria subsistência. A nossa cultura somente poderá se impor sobre as outras culturas, no entrechoque inevitável, se for suficientemente prestigiosa. Daí a razão por que precisamos mostrar às novas gerações - bem como àqueles que, vindos de terras distantes, acorrerem à nossa querência - que as tradições gaúchas são REALMENTE belas, e que o gaúcho merece realmente a nossa admiração.


O TRADICIONALISMO COMO FORÇA ECONÔMICA

            Prestigiando as tradições gaúchas e prestando assistência moral e social ao homem do campo, o Tradicionalismo estará contribuindo de maneira inestimável para a solução do problema que ora sufoca a nossa vida econômica: o êxodo rural, a crise agrícola. É que, dentre as principais causas do êxodo rural, encontramos uma que foge ao âmbito dos fenômenos econômicos. Para proteger o homem do campo, e fazer com que ele permaneça no meio rural, não basta que o Estado lhe forneça meios econômicos mais seguros. Se o campesino acaso julgar que o lugar que lhe está reservado na sociedade encontra-se nas cidades, ele será um desajustado enquanto não conseguir realizar seu sonho de transferir-se para a cidade. Este fenômeno prende-se ao conceito sociológico de “status”, que é a posição social de uma pessoa em relação a todas as outras com quem está em contato.

            Se “os outros” demonstram que certo indivíduo ocupa um status digno, ele fica satisfeito; mas se “os outros” demonstram o contrário, ele é inconscientemente levado a demonstrar sua habilidade, e, nesse afã, sempre deseja competir com os indivíduos que considera superiores, jamais com aqueles que considera inferiores. Assim sendo, se o campesino se considera inferior ao citadino, mais cedo ou mais tarde tentará procurar a cidade, para ali competir com quem lhe rouba a posição social.

            Prestigiando as tradições gaúchas, e prestando assistência moral e social ao homem do campo, o Tradicionalismo estará convencendo o campesino da dignidade e importância de seu status. Estará, em suma, pondo em prática aquilo que o sanitarista Belizário Penna um dia salientou, mais ou menos nestes termos: “O Brasil é o país onde mais de fala em valorização. Valorização do café brasileiro, do dinheiro brasileiro, do algodão brasileiro, do boi brasileiro. Somente não se pensa na mais urgente e importante valorização - a do Homem brasileiro - a qual, por si só, estaria conduzindo a todas as outras”.

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“...no entanto, aquela etapa é essencial para a compreensão do que vem ocorrendo com a cultura desde os anos 90 do século XIX. Ou seja: ciclicamente, de trinta em trinta anos, ao ensejo de alguma rebordosa mundial ou nacional, e havendo clima de abertura para as indagações do espírito, termina surgindo algum "ismo" relacionado com a Tradição.
Assim foi com o gauchismo dos anos 90 (1890). Com o regionalismo dos anos 20 (1920). Com o tradicionalismo dos anos 50 (1947...). Com o nativismo de 1970. E sou capaz de jurar que lá pelo ano 2010 surgirá uma espécie de telurismo antinuclear ou cibernético, resultante da inquietação de analistas de sistemas em conluio com artistas plásticos, incluindo cartunistas e comunicadores visuais.
É claro que, de acordo com cada época, modifica-se a dinâmica e o campo de ação. Mas, no fundo, é tudo a mesma coisa: expressão de amor à gleba e respeito ao homem rural".

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