quarta-feira, 11 de março de 2020

Noite de muita cultura no CTG Glaucus Saraiva, do Grêmio Geraldo Santana

            Quando falamos em sustentabilidade falamos na capacidade de sustentação ou conservação de um processo ou de um sistema. A conceituação de sustentabilidade aborda a maneira como se deve agir em relação à natureza. Além disso, pode ser aplicado desde uma comunidade, de uma sociedade, como o CTG, até todo o planeta.
             Esta foi pauta do primeiro evento cultural de 2020, promovido pelo CTG Glaucus Saraiva, responsável pelos assuntos de tradição e folclore do Grêmio Geraldo Santana. O encontro reuniu um considerável número de participantes na noite de terça-feira, 10 de março, e abordou o tema anual do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), definido durante o 68º Congresso Tradicionalista, em Lajeado. 

            Na ocasião, o historiador e jornalista Rogério Bastos apresentou o tema ‘Sustentabilidade e as novas gerações’, e destacou o tripé que embasa o projeto de autoria do tradicionalista Lucas Oliveira, da 5ª RT. "A sustentabilidade é alcançada através do Desenvolvimento Sustentável. Devemos seguir o tripé da sustentabilidade: o social, o ambiental e o econômico. Precisamos trabalhar esses três fatores de maneira integrada, para que a sustentabilidade de fato aconteça", afirmou Bastos.
              Além do bom público, a palestra, organizada pelo Departamento Cultural da entidade, sob chancela da diretora Simone Castilhos, e gestão de Prendas e Peões, também desfrutou da presença e conhecimento do casal Valdir e Neusa Secchi. Na bagagem, Valdir traz a experiência como coordenador da 1ª RT, ainda na década de 90, enquanto Neusa já ocupou o cargo de vice-presidente de Cultura do MTG e, atualmente, integra as Comissões Gaúcha e Brasileira de Folclore, além de ser autora de diversos livros sobre folclore.

            Outra presença ilustre foi a do presidente Ivo Izolan, que assistiu na integra a manifestação do palestrante e, ao final, falou da importância do tema. “Sou missioneiro, e como apreciador das tradições gaúchas, vejo nesta palestra um assunto importante para todos nós. O desenvolvimento sustentável e a preocupação com os recursos naturais são temas que precisam da atenção integral das novas gerações. Parabéns por esse importante olhar", pontuou o presidente geraldino.  

             O encontro foi encerrado com um delicioso jantar preparado pela equipe. De acordo com o patrão Paulo Nemitz, a palestra serviu de inspiração para as iniciativas que o CTG Glaucus Saraiva pretende implementar.


Fonte/Fotos: Liliane Pappen
Jornalista GSEGS

Audiência pública sobre cadeia produtiva da cultura gaúcha recebe painelistas do nordeste

Representantes de Pernambuco e Bahia participam de Audiência Pública sobre cadeia produtiva da música e da cultura gaúcha na Assembleia Legislativa do Estado

      Na próxima quinta-feira (12), a Comissão Especial da Cadeia Produtiva da
Gilberto Freyre Neto
Música e da Cultura Gaúcha da Assembleia Legislativa do Estado recebe, em uma Audiência Pública, o Secretário de Cultura de Pernambuco e o Superintendente de Promoção Cultural da Secretaria de Cultura da Bahia para debater as experiências de sucesso dos dois estados em promover as suas culturas regionais. O evento acontecerá no Espaço de Convergência da Assembleia, em Porto Alegre, às 18h, e tem entrada franca.


      Proposta e presidida pelo deputado Luiz Marenco (PDT), a Comissão Especial vem aprofundando temas importantes para o artista gaúcho, tais como os incentivos e financiamentos públicos e privados, o aperfeiçoamento da legislação de apoio à cultura, os mecanismos de arrecadação e distribuição dos direitos autorais e os desafios impostos às culturais regionais pela globalização. 

      Além de ser um dos pilares da construção da identidade individual e coletiva, a cultura é um mercado promissor no combate ao desemprego, na geração de renda e na produção de bens com a marca do Rio Grande do Sul. Levantamentos apresentados em uma das audiências públicas da comissão, revelam que há mais de 27 mil empresas na área da economia criativa no estado, aproximadamente 130 mil postos de trabalho - mais que a construção civil -, e que a economia criativa é responsável por 2,3% do PIB gaúcho, números que muitos desconhecem. 

      Para enriquecer o debate sobre este cenário, a comissão convidou Gilberto Freyre Neto, Secretário de Cultura de Pernambuco, e Alexandre Freitas Simões, Superintendente de Promoção Cultural da Secretaria de Cultura da Bahia, para virem expor as experiências positivas de seus estados na promoção e fortalecimento da cultura e folclore locais. Para se ter uma ideia, o faturamento do carnaval de Pernambuco neste ano foi de R$ 457,8 milhões, cerca de 3,4% a mais do que em 2019. Já no Carnaval de Salvador, 16,5 milhões de pessoas circularam pelas ruas da capital baiana, incluindo as festas pré-carnavalescas. “Verba para a cultura criativa é um importante investimento, porque além do benefício social e artístico, indicadores apontam que a cada R$ 1,00 aplicado em cultura através das Lei de Incentivo à Cultura Federal, R$ 1,59 retornam para a economia local. Como legisladores, precisamos perceber o potencial da economia criativa para o desenvolvimento humano e econômico do nosso estado, e essa é a proposta da nossa comissão”, afirma Marenco.

Serviço:
O quê: Audiência Pública da Comissão Especial da Cadeia Produtiva da Música e da Cultura Gaúcha
Painelistas: 
Gilberto Freyre Neto - Secretário de Cultura de Pernambuco
Alexandre Freitas Simões - Superintendente de Promoção Cultural da Secretaria de Cultura da Bahia
Carmen Langaro - Secretária de Estado Adjunta da Cultura do Rio Grande do Sul
Quando: 12 de março, as 18h
Onde: Espaço de Convergência da Assembleia Legislativa
Informações: 51 3210.1969   -   Entrada franca

segunda-feira, 9 de março de 2020

Wilson Araújo é o homenageado do evento que ocorre em maio, na Capital do Chimarrão

Por. Jaqueline Caríssimi

(…) O Canto dos pássaros!
O Berro do boi!
E o relincho dos potros,
ficam nítidos e puros,
nos poemas campeiros que os
poetas escrevem musicando a vida (…)

       De autoria do homenageado da edição do Sarau da Poesia Gaúcha 2020, Wilson Araújo, conhecido também por 'Nego Wilson', como gosta de ser chamado, a poesia 'Essência', vencedora da Sesmaria da Poesia Gaúcha/Osório 1999, traz em suas linhas o que a tradição do Rio Grande do Sul pode vir a mostrar a partir da interpretação dos declamadores e poetas na edição 2020.

          O Sarau da Poesia Gaúcha se realiza no aniversário de Venâncio Aires, nos dias 9 e 10 de maio deste ano, junto com a programação da Agrofeira, no Morada Velha, no Parque do Chimarrão.

          As inscrições para os declamadores começam na segunda-feira, 9 de março e são limitadas a trinta inscrições por categoria. Elas são gratuitas e podem ser feitas pelo e-mail saraudapoesiagaucha@gmail.com 

         O evento será realizado com mostra de poemas dos vencedores do evento de 2019, homenagens e concurso de declamação reunindo Centros de Tradições Gaúchas de todo Estado. O cerimonial será feito pelos tradicionalistas Odilon Ramos e Liliana Cardoso, nomeada madrinha do evento.

        De acordo com o presidente da Associação Tradicionalista de Venâncio Aires (ATVA) e coordenador do evento pelo Centro de Tradição Gaúcha - CTG Chaleira Preta, Eagro Muller, no sábado, 9 de maio, o evento à noite, será a "Mostra de Poesias", com a presença do poeta e declamador homenageado Wilson Araujo. Foram convidados para a noite, os vencedores conforme as categorias do Sarau da Poesia Gaúcha do ano passado: Joilson Ramos de Oliveira, de Bento Gonçalves; Paula Daniele String e Giulia de Oliveira Macedo, de Caxias do Sul; Douglas Dias e Gabriel Dornelles, de Cachoeira do Sul; Guilherme Alves Marques e Rodrigo Machado da Silveira, de Caçapava do Sul; Silvana Andrade, de Portão; Vitória Benazzi Almeida, de Santa Cruz do Sul; Julia da Rosa Severo, de Gravataí; Luiza Quinteiro, de Guaíba; Andréa Eloi, de Lajeado; Liliana Cardoso, de Porto Alegre; Odilon Ramos, de Santo Antônio da Patrulha; Romeu Weber, de Osório; Valdemar Camargo, de Campo Bom; Jorge Araújo, de São Leopoldo e Kayke Mello; de Santa Maria.

        No domingo, 10 de maio, o evento começa pela manhã, com a apresentação dos inscritos de cada região tradicionalista. A comissão julgadora já está definida e domingo à noite acontece a divulgação dos premiados.

O homenageado

      Wilson Araújo, considerado pelos tradicionalistas um dos maiores ícones da interpretação da poesia gaúcha e um dos mais conceituados declamadores do Rio Grande do Sul. Natural de Alegrete, reside, atualmente, em Terra de Areia.

      Foi campeão de concursos, como rodeios internacionais de Vacaria, Osório, Tramandaí, Bagé, Passo Fundo, Alegrete, Campeão dos Campeões Internacionais em Osório e Campeão dos Campeões do Fegart. Participante de diversos Festivais de Poesia e avaliador de eventos como Bivaque da Poesia Gaúcha (Campo Bom), Sesmaria da Poesia Gaúcha (Osório), Rodeio Internacional de Vacaria, Rodeio Internacional de Osório, Rodeio Internacional de São José(SC) e Rodeio Internacional do Mercosul (Gravataí), entre outros.

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte X

UMA CAPITANIA MARCADA PELA GUERRA

         E assim, ao longo dos meses, vai o viajante francês registrando com fidelidade os usos e costumes da Capitania. Da maior importância são suas observações de ordem econômica, falando sobre a produtividade dos campos, a renda das atividades pastoris, o detalhamento da exportação e importação.   (Barbosa Lessa)

          Praticamente em toda a Capitania escuta queixas dos agricultores por causa da peste ferrugem, que, de uns anos a essa parte, vem dizimando os trigais. Parece-lhe ser, esse, um problema insolúvel, pois as sementes já vêm contaminadas por essa moléstia e os agricultores não dispõem de meios para substituí-las por outras, sadias.

           E dizer que a Capitania já exportara trigo até para os Estados Unidos!
Um outro assunto a que Saint-Hilaire se refere continuadamente é o aspecto demasiado militar do Rio Grande do Sul, aqui gerando uma sociedade castrense.

     "Quando um dos estados europeus entra em guerra, todas as suas províncias fornecem soldados e, por conseguinte, se a nação se torna belicosa, o é em sua totalidade. No Brasil, tal não acontece. A fronteira meridional há muito tempo goza apenas curtos intervalos de paz, mas, salvo algumas tropas vindas de São Paulo e Santa Catarina, todos os soldados que combateram a Espanha são naturais da própria Capitania. Nenhum recrutamento foi feito nas províncias mediterrâneas e setentrionais. Disso resulta que, enquanto os habitantes desta Capitania se tornam completamente militarizados — dotados de um sentimento nacional que só a guerra faz nascer —, os povos das outras capitanias caem pouco a pouco na inércia". 
Obra inesquecível de Edson Vasques

     "Em geral, os homens daqui são extremamente corajosos; contam-se deles milhares de feitos que demonstram sua intrepidez... Estão sempre dispostos às mais árduas lutas, mas ao mesmo tempo é difícil sujeitá-los a uma disciplina regular. Para guerrear, deixam sem pesar algum suas famílias, mas, após a vitória, procuram retornar aos lares. Nunca desertam pela cobardia, mas o fazem frequentemente quando os deixam inativos. Quando, antes da batalha de Taquarembó, o Conde da Figueira convocou os habitantes, foram os desertores que em 'maioria atenderam ao chamado. Apresentaram-se não somente porque viram o País ameaçado, mas ainda porque o conde prometera retorná-los aos lares logo fosse o inimigo vencido".

       "As tropas estacionadas na fronteira são em número de três mil homens, compostos de milicianos da região e de uma legião de paulistas. O soldo desses homens está atrasado há vinte e sete meses, e há três anos que eles vivem unicamente de carne assada, sem pão, sem farinha e sem sal. A ração de cada homem é de quatro libras de carne por dia".

         "Tenho por vizinho, em Porto Alegre, um comissário de guerra do velho exército português, para aqui vindo a fim de organizar o serviço de víveres destinados às tropas. Anda a braços com inúmeros obstáculos, devido à desonestidade dos chefes militares, acostumados a tirar proveito da desordem até agora reinante. Parece que não existe nenhuma escrita. Os oficiais requisitam gado dos estancieiros e dão vales que deveriam ser pagos pela Junta da Fazenda Real. Durante algum tempo os pagamentos foram feitos com pontualidade, mas atualmente estão suspensos por falta de verba".

      "Entre o Acampamento de Santa Maria e a estância de Restinga Seca, meu hospedeiro queixou-se muito dos abusos de que são vítimas. Muitas vezes seus cavalos são roubados, pelos oficiais, e cortam as pontas das orelhas, sinal de propriedade real. Mesmo quando requisitados, não se observa regra alguma nas requisições, tudo se faz arbitrariamente. Há algum tempo haviam levado muitos bois daquele distrito para Capela de Alegrete e Belém e acharam um excelente meio de evitar reclamações dos proprietários: não se lhes dar recibos. Meu hospedeiro esperava providências da Corte".

     "Não existe ainda um exército brasileiro, mas todas as capitanias têm suas tropas particulares, que não se entendem com uma direção comum e nem se compõem de um só conjunto. Há sérios inconvenientes nesse sistema militar. Como os corpos dependentes desta Capitania são quase inteiramente compostos de homens da região, tendo a guerra necessidade do grandes verbas e dando lugar a grandes fortunas, formou-se aqui uma espécie de aristocracia de família, embaraçosa para os capitães-generais e perigosa para a paz dos cidadãos".


       "As populações ficam expostas a vexames e rapinagens dos chefes e subalternos.  Entretanto são raros os que se queixam, "Pode-se dizer, com segurança que os franceses não suportariam, sem revolta, a centésima parte do que  aguentam, com tanta paciência, os habitantes da Capitania do Rio Grande do Sul”.

ECOS DA REVOLUÇÃO LIBERAL

       Enquanto Saint-Hilaire viajava por estas bandas, ocorrera no Porto a rebelião burguesa. Os insurretos pretendiam o retorno de D. João VI para Lisboa e a recondução do Brasil ao estado colonial. A 4 de outubro de 1820 entravam em Lisboa. Aboliram a regência, exigiram a convocação das Cortes e organizaram uma junta Provisória, incumbida de elaborar uma constituição liberal.

          No Brasil, as primeiras cidades que tiveram notícia da revolução foram Belém e Salvador. Em janeiro de 1821, a capita! do Pará depunha o governo regional e nomeava uma Junta Provisória. Dias depois o capitão-general da Bahia recusava-se a assumir a presidência da junta local e velejava para o Rio de Janeiro; houve um começo de conflito, com vários mortos e feridos, em face da reação do Marechal Felisberto Caldeira Brant Pontes (depois Marquês de Barbacena); mas ao final firmava-se a rebelião constitucionalista. Com a pressão também no Rio, D. João VI terminou admitindo a Constituição liberal para todos os seus domínios em 26 de fevereiro, os príncipes D. Pedro e D. Miguel juravam a sua aplicação, sob frenéticas aclamações.

          Na Capitania do Rio Grande do Sul, o Conde da Figueira está ausente da capital e essa circunstância facilitou a aclamação de um governo trino interino, constituído pelo General Manuel Marques de Sousa como presidente, pelo ouvidor Doutor Joaquim Bernardino de Sena Ribeiro e pelo vereador mais idoso de Porto Alegre, Senhor José Rodrigues Ferreira.

           Saint-Hilaire encontrava-se em Rio Pardo, retornando à capital, quando foi informado de que haviam sido depostos o capitão-general em Porto Alegre e seu anfitrião o Sargento-Mor Mateus da Cunha Teles em Rio Grande. Tema para mais uma "reportagem" em seu diário de viagem:

     "A pequena insurreição ocorrida em Porto Alegre não foi obra do povo e sim de tropas excitadas pelos negociantes. Parece certo que tudo tenha passado em ordem, sem derrame de uma só gota de sangue. Este povo faz revoluções com uma sabedoria que não canso de admirar, mas cujas causas são fáceis de conhecer. Acostumado a uma cega submissão, este povo deve, naturalmente, conservar ainda respeito pela autoridade, mesmo quando se revolta contra ela. A amizade que os brasileiros têm pelo soberano é ainda uma das causas que, pelo menos durante algum tempo, os preservará de excessos".

     "Da revolução que vem de se operar é interessante notar estar todo mundo encantado com a Constituição, dela esperando grandes benefícios. Mas a maioria dos que esperam tanta felicidade não sabem sequer o que seja uma Constituição."

           Numa outra passagem de seu diário no Rio Grande do Sul, o arguto viajante francês parecia entrar nos domínios da futurologia:

     "Não sei o que se passa neste momento em Portugal, com o soberano D. João a caminho de Lisboa. Mas se ele e seus filhos não forem atilados, o Brasil será em breve perdido pela Casa de Bragança, e suas capitanias, como as colônias espanholas, tornar-se-ão teatro de guerras civis. O temor de tornar ao domínio português levará os brasileiros à revolta, ou ao menos servirá de pretexto para isso. E como a obediência que as diversas províncias do Brasil prestam ao soberano é o único laço que as une, é evidente que elas se separarão quando tal laço deixar de existir. Sem falar do Pará e de Pernambuco, as capitanias de Minas e do Rio Grande, já menos distanciadas, diferem mais entre si que a França da Inglaterra. Como poderão os habitantes, abandonados a si próprios, entenderem-se e cooperar para a formação de um Estado único?..."

sexta-feira, 6 de março de 2020

Em Pelotas, durante a FECARS, acontece o 21º Seminário de Cultura Campeira




Prendas do RS realizam seminário em Carazinho, neste sábado




Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte IX

NA CAMPANHA

      Com sua carreta, criados e um guia (miliciano da guarda de Quaraí), Saint-Hilaire subiu da Banda Oriental. "Quando eu estava em Belém (no rincão de Arapeí) havia dois caminhos a seguir. Um, passando pela povoação chamada Capela do Alegrete, e outro, o que adotei, marginando o rio Uruguai". Ele tornaria a se referir a essa Capela quando chegasse a Santa Maria (na Região Central): "Os produtos da lavoura local são consumidos aqui mesmo, mas pequenas quantidades são remetidas à Capela de Alegrete, onde os proprietários, tendo quase os mesmos hábitos dos gauchos, ainda não se dedicam à agricultura".

      Logo à entrada da deserta Campanha sul-rio-grandense, perderam-se ("não há nenhum caminho traçado") e o vaqueano não conseguia atinar com o rumo do destacamento de Santa Ana, seu primeiro objetivo. Depois de infrutíferas buscas, o vaqueano e o criado Joaquim Neves voltaram à guarda de Quaraí, para que o alferes comandante fornecesse um outro cicerone mais habilitado.
Não havia viva alma na planície. Mas sobravam bandos de avestruzes e veados ("hoje pudemos contar trinta veados em um só bando dos vários encontrados").

       Manadas de cavalos selvagens ("fugiram oito dos nossos cavalos, foram encontrados no meio de uma manada selvagem, José Mariano conseguiu pegar quatro deles"). E, por várias vezes, registra-se a presença de tigres ("Matias veio dizer-nos ter visto quatro tigres, dois grandes e dois pequenos, os quais estavam devorando o melhor dos meus cavalos").

      Chegam por fim à estância do alferes comandante da guarda de Santa Ana. Não encontravam a guarda porque fora mudada para duas léguas além. "Há dez dias eu não via casas nem outras pessoas além de meus criados e vaqueanos. Tive grande alegria ao ver por fim alguns ranchos."A estância se compõe de míseros ranchos, na maioria ocupados por famílias indígenas emigradas de Japeju". "Os estancieiros desta região, não tendo escravos, aproveitam a imigração dos índios para conseguir alguns que possam servir de peões. Os guaranis montam bem, têm prazer nisso, e muitos sabem amansar cavalos."

      Não foi agradável a impressão deixada pela estância e seu proprietário. "Eis um homem que apenas se nutre de carne, mora em mísero rancho, não tem outro prazer além do fumo e do mate, e é oficial de milícia. Mostra-se muito satisfeito; mas é de se esperar que uma tal existência deva reconduzir necessariamente à barbárie um povo tão resignado. Limitar suas habilidades a saber montar a cavalo, e seus costumes a comer carne, é reduzi-lo à condição de indígena e distanciá-lo da civilização, que, nos fazendo conhecer uma multidão de prazeres, nos força a trabalhar, a exercer nossa inteligência para conquistá-los e por isso a aperfeiçoar-nos, pois é unicamente pelo exercício de nossa inteligência que nos aperfeiçoamos. Sou tentado a acreditar que esse homem, apesar de ser branco, pertence aos habitantes desta região que têm costumes semelhantes aos gauchos, homens de maus costumes que perambulam pelas fronteiras."

      No Rincão da Cruz, vê um rodeio. O gado estava em repouso, cercado de peões. O terreno perdera o pasto, "o que não é para se admirar, pois é sempre no mesmo local que se reúne o gado". As pastagens são excelentes. Os animais, grandes e de boa raça.

       Chega por fim a um autêntico oásis: a estância de São Donato, pertencente ao Marechal Chagas. Cinco léguas de campo, seis mil bovinos, duzentos cavalos. Atendida por um capataz e dez peões.

      "Fui bem acolhido pelo capataz, que me ofereceu pêssegos, figos e melancias. De todas as regiões por mim percorridas até agora, na América, não encontrei outra em que os produtos europeus produzissem tão bem como aqui."

quinta-feira, 5 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte VIII

NO LITORAL SUL

            Em prosseguimento à cruzada pelo Litoral Norte (Palmares, São Simão, Mostardas e lagoa do Peixe), a comitiva do Conde da Figueira hospeda-se na freguesia do Estreito, da qual depende o Norte, "que é o porto da vila de São Pedro". A aldeia do Estreito era outrora mais a leste, mas, como as casas foram soterradas pelos turbilhões de areia que o vento atira das margens do mar, mudaram as habitações para onde se encontram no momento, "onde, entretanto, terão em breve a mesma sorte". A desolada paróquia se estende por 19 léguas, até a extremidade do istmo, e dois terços de sua população compõem-se de escravos, ligados à atividade do porto do Norte.

           Em São Pedro (Rio Grande), que é uma vila com cerca de duas mil almas, a comitiva do Conde da Figueira se acomoda na grande residência para hóspedes do Sargento-Mor Mateus da Cunha Teles. "Este é natural de Açores, fez fortuna neste país e associou-se a João Rodrigues para a arrecadação dos impostos sobre couros. É quem recebe todos os oficiais que vão a Montevidéu e hospedou mesmo, em sua casa, durante quarenta dias, todo o Estado-Maior do Barão de Laguna (General Lecor)."

           Saint-Hilaire participa de um novo baile, onde encontra homens e mulheres muito bem trajados. "Eram cerca de sessenta mulheres. Usavam vestidos de seda branca, sapatos de cetim e meias de seda; jovens e velhas traziam a cabeça descoberta, os cabelos armados por uma travessa e enfeitados com flores artificiais. Achavam-se assentadas ao redor do salão em cadeiras colocadas em várias linhas. Os homens, em muito menor número, estavam de pé. Era quase preciso obrigar os homens a tirar as senhoras para dançar e, excetuado o conde, ninguém conversava com o elemento feminino." 

           Também participa de mais um banquete, servido com luxo, e deixa enfático registro sobre o hábito de erguer brindes e louvações à saúde uns dos outros: "Após a sobremesa serviram-nos café e licores. Durante o jantar foram trocados vários brindes, repetidos agora frente aos licores. A reunião prolongou-se até alta noite e a maior parte dos convivas retiraram-se bastante tocados pelas bebidas. Os portugueses e brasileiros usam beber o vinho puro e nos grandes jantares a praxe dos brindes leva-os a libações demasiadas".

Como não poderia deixar de ser, uma referência à barra diabólica:
          "A barra do Rio Grande apresenta uma notável irregularidade — é que não fica sempre no mesmo lugar. Há vinte anos era mais setentrional que a atual, mas as areias obstruindo-a pouco a pouco tornaram-na apenas transponível às pirogas".

            "Antes da guerra que envolveu o Prata, porque a barra é muito perigosa e porque o charque dessas cercanias é inferior ao de Buenos Aires e Montevidéu, era nesses portos que mais a procuravam. Mas depois da guerra Rio Grande tornou-se centro desse comércio e por isso um importante porto para o Brasil."

Uma referência explícita à solidão:

           "Nada se iguala à tristeza destes lugares. De um lado o oceano a rugir, e do outro o rio. O terreno, extremamente chato e quase ao mesmo nível do mar, não passa de branquicentos areais. Destroços de embarcações, semienterrados na areia, lembram terríveis desastres. O refluxo das águas do rio, ocasionado pelo mar, e a falta de profundidade são as causas das dificuldades que a barra apresenta à navegação e dos naufrágios frequentes ali registrados".

            "Para evitar naufrágios, um homem, continuamente encarregado de sondar a barra, por sinais, informa às embarcações se a quantidade d’água, que varia sem cessar, lhes permite a entrada. Esse prático recebe 10 mil-réis de cada embarcação que sai ou entra".

           "Embarcações denominadas catraias, movidas a vela ou a remo, fazem o transporte entre Rio Grande e Norte. Os moradores da região distinguem esses lugares simplesmente pelos nomes de Sul e Norte, mas a aldeia do Norte chama-se propriamente São José do Norte. Sob todos os pontos de vista ela parece ter sido muito pouco favorecida pelos poderes públicos".

           "Em São Pedro do Sul somente podem ancorar iates. Mas é em São Pedro que existe a Alfândega e é preciso conduzir para lá, por meio de iates, todas as mercadorias que são descarregadas em Norte, mesmo as destinadas ao comércio desta cidade. É evidente que esses transportes são favoráveis ao contrabando e que eles têm o inconveniente de majorar as despesas e aumentar os riscos. Entretanto, como o centro do comércio do sul da Capitania se achava há muito localizado em São Pedro e como os negociantes mais ricos da região aí têm suas residências e seus armazéns, tendo a cidade sido dotada de uma sede de Administração, é claro que não se podia priva-la bruscamente dos privilégios usufruídos, embora em prejuízo dos interesses gerais".

           "É sede de uma paróquia e residência de um juiz de fora (nomeado há menos de três anos). Há uma escola nacional de Latim, aberta em 2 de outubro de 1820. Compõe-se a vila de seis ruas muito desiguais. A mais comprida, denominada rua da Praia, é dotada de belas casas e mela se vêem quase todas as lojas e vendas, bem sortidas".

           "Entre os homens de Rio Grande, todos negociantes, encontrei quase a mesma frieza e os modos desdenhosos dos habitantes do Rio de Janeiro. São em parte constituídos de europeus nascidos em uma classe inferior e que não receberam educação alguma. Começam como caixeiros de lojas e passam depois a negociar por conta própria. Como os lucros do comércio neste país são avultados, eles não tardam a adquirir fortuna que jamais alcançariam em suas pátrias respectivas. Inflam-se de orgulho na progressão da riqueza".

         "Aqui o pão é menos caro e mais abundante que em outras regiões do Brasil devido à produção local do trigo. Em compensação a lenha é cara por causa da falta de matas nos arredores. A que se queima aqui vem do rio Camaquã".

         "O vigário informou-me que o valor das mercadorias exportadas da província durante o último ano subia a 4 milhões de cruzados".

         "Tal exportação consiste principalmente em carne-seca, couros e trigo; exportam-se também crinas e chifres de boi".

         "Em 1818 a quantidade de carne-seca exportada para Cuba e Estados Unidos chegava a 100 mil arrobas, há muito tempo taxando-se em 200 réis o imposto de cada arroba".

         "Mas no ano passado taxaram em 600 réis e a exportação desceu a 40 mil arrobas".

         "Espera-se seja ainda menor neste ano."

          Saint-Hilaire despede-se da vila de Rio Grande e — já apartado da comitiva do Conde da Figueira — segue para Montevidéu, através das verdes solidões do Taim e Chuí. Nesse percurso ele se refere à uniformidade do terreno, às pouquíssimas habitações, ao grande número de bovinos, ovinos, cavalos e jumentos pastando livremente. Descreve o processo de debulhar o trigo, a pata de cavalo, nas eiras circulares. Ao encontrar os primeiros espanhóis, descreve um certo complemento do traje: "Trazem o chiripá, feito do mesmo tecido dos ponchos, e que é uma espécie de cinto que desce até quase aos joelhos, à guisa de uma pequena saia". Numa estância perto do Chuí, o proprietário estava ausente mas sua esposa desempenhou as honras da casa. "Todas as mulheres que tenho encontrado, de Rio Grande para cá, têm conversado comigo, proporcionando-me gentilezas, e tenho observado que em geral possuem melhor bom senso que os próprios maridos." Passando à outra margem do Chuí, chega ao destacamento de guerrilhas acantonado no serro de São Miguel. "Os soldados aqui acantonados estão quase todos, atualmente, em gozo de licença. Pertencem a corpos de voluntários formados no correr da guerra atual pelo estancieiro Bento Gonçalves. Segundo informes que obtive, esse homem reunira sob seu comando uma dúzia de desertores, sendo depois reconhecido de utilidade pelos chefes militares, e alistara posteriormente um número considerável de voluntários."

Show en el Patio Cervecero - Fiesta de la Patria Gaucha



     Dia 7 de março, na Fiesta de la Patria Gaucha, a animação fica por conta do Vale4 musical, numa noite de muita festa e música regada pela cerveja oficial do festival: @cabesasbier.

      A 34° Fiesta de La Patria Gaucha acontece de 3 a 8 de março na cidade uruguaia de Tacuarembó, e O Brasil e o Rio Grande do sul estarão muito bem representados pelo Grupo Vale4, na maior festa folclórica do Uruguai! 

     O Grupo musical Vale4 é um conjunto formado pelos músicos e amigos Vinícius Camargo, Flávio Mendes, Leandro Nunes e Ricardo Silva. Tem como foco principal o acompanhamento de invernadas artísticas e também estará acompanhando a delegação brasileira "Pampeanos Sem Fronteiras", sendo o único espetáculo de dança com música ao vivo no festival, e com muita felicidade aceitou o convite para embalar a noite do dia 7 de março, em um show com muita música gaúcha!

Conheça mais o trabalho deste grupo:
Face: @vale4musical
Insta: @vale4musical
Contato: (53) 9-9997-5450

Vinicius Camargo - Músico | Publicitário
(53) 98130 9603 - www.viniciuscamargo.com

quarta-feira, 4 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte VII

NAS   MISSÕES

             Saint-Hilaire estivera em Montevidéu, percorrera a Banda Oriental, reentrara na Capitania pela fronteira de Quaraí e, ultrapassando o rio Ibicuí, já estava no território missioneiro. Em São Borja, visita a igreja, "e a grandiosidade deste edifício, semidestruído, causou-me profundo sentimento de surpresa e de respeito". 

           O Comandante Chagas Santos havia sido recentemente substituído pelo Coronel Paulet, "homem sensato, inteligente e de nobres sentimentos". Percorre as semiabandonadas cidades de São Nicolau ("achava-se já em deplorável estado de decadência quando os gauchos espanhóis ali entraram, em abril de 1819, e acabaram de destruí-la"), São Luís ("não há senão trezentos habitantes, todos velhos, mulheres e crianças"), São Lourenço ("apenas duzentos indivíduos sujos, mal vestidos, tristes e sonsos, pois os índios são como crianças: alegres e francos quando tratados com carinho, e melancólicos e aborrecidos quando tratados rudemente"), São Miguel ("a menos pobre das aldeias, possuindo uma considerável plantação de mate e importante estância onde são marcados três mil animais cada ano; seus habitantes são bem nutridos, bem vestidos e tratados carinhosamente por seu administrador"), São João ("as terras daqui, como é notório nas de todas as Missões, são excelentes e produzem igualmente trigo, mandioca, milho, algodão, feijão, favas" e toda espécie de legumes") e Santo Ângelo ("a população não vai além de oitenta pessoas, os homens agora ocupam-se em fazer erva-mate e são as mulheres que cuidam das plantações").

            Só encontrava velhos, mulheres e crianças, .porque todos os jovens haviam sido requisitados para o Regimento de Guaranis, sediado em São Borja. "É extremamente necessário diminuir o aspecto militar desta província se não a querem destruir completamente."

            Seus criados e o vaqueano (guia) brincam e dançam com as índias. Ele encontra um grupo delas lavando roupa à beira do rio Camaquã: não se envergonham de estar nuas e continuam tranquilamente naquela atividade. Pelo que tem ouvido, Saint-Hilaire chega à conclusão de que as nativas "nasceram só para a perdição da nossa raça". 

            "O asseio é uma das qualidades que me parecem distinguir as mulheres guaranis. São frequentemente andrajosas, porém limpas. Sua vestimenta consiste apenas numa camisa e um vestido de algodão; seus cabelos são muito compridos, trazem-nos enrolados atrás da cabeça e quando vão à igreja usam um véu branco. Não sei se é o hábito de ver índias que vai fazendo desaparecer a meus olhos qualquer coisa da feiura delas, mas parece-me de fato existir entre essas mulheres algo de agradável, em seu sorriso infantil."

            Difícil encontrar um miliciano que não se faça acompanhar de uma índia, mesmo em diligências como a da captura de um negro que cometera desatinos do outro lado do rio Uruguai. "Se este homem branco, natural de Santa Catarina, não tivesse emigrado para aqui, nunca teria adotado essa prática de se fazer seguir por sua índia, mas, pela convivência com os guaranis, acabou por lhes imitar os costumes. Quase todos os milicianos são assim amasiados a índias. Mas essas misturas farão a Capitania do Rio Grande perder a sua maior vantagem — a de possuir uma população sem mescla. Os filhos de pais brancos e índias guaranis não terão a docilidade que é virtude desse povo e, criados por índias ou abandonados a si mesmos, terão todos os vícios dos índios e dos brancos."

           Quando de sua estada em São Borja, delicia-se com a musicalidade dos guaranis. "Fui hoje à missa, durante a qual alguns meninos cantaram árias portuguesas, com voz muito boa e muita afinação." "A banda do Regimento de Guaranis executou o hino do regimento, com muito gosto e segurança. Os jesuítas serviam-se da música para abrandar os costumes dos nativos e para cativá-los. Como os índios só ouviam o som dos instrumentos nas cerimônias religiosas, logo tomaram a música como parte essencial do culto divino, tornando-se cristãos tanto quanto podiam ser, pois eram apaixonados pelos instrumentos musicais. Após o desaparecimento dos jesuítas, o amor à música persistiu; e a aprendizagem da música tornou os guaranis também soldados, como outrora os fizera cristãos."

            Troca opiniões, longamente, com o Coronel Paulet a respeito da situação dos guaranis. "Disse-me o Senhor Paulet que o sistema jesuítico formava um todo do qual não é possível que se conservem umas partes suprimindo-se outras. Era apoiado sobre bases não mais existentes. Tais bases eram as poucas ideias que os índios tinham do resto do mundo, sua separação de todos os brancos que não pertencessem à ordem dos jesuítas. Mas hoje eles sabem que o mundo não se limita às suas aldeias. Contrariados, nada os impede de fugirem. E um grande número deles, dispersando-se já pela Capitania, constitui forte exemplo a ser seguido."

            Saint-Hilaire confessa não saber como remediar a situação. "É bem verdade que no estado atual o índio exige pouco conforto. Podendo dividir com uma companheira seu rancho mal construído, vendo um pedaço de carne suspenso ao teto e tendo sua cuia cheia de erva-mate, será mais feliz do que o maior potentado branco, cercado de aduladores e seduções. Todavia, esses escassos confortos são suficientes para levá-lo à desaparição, porque, para mitigar sua fome, precisará trabalhar, e terá de se submeter à opressão." 

            "A saída dos índios das Missões corresponde à entrada de novos brancos. Os índios serão em parte renovados pela chegada de europeus, de paulistas ou mineiros, sendo possível o desaparecimento dos guaranis ao fim de uma ou duas gerações."

            Aliás, os paulistas já estão chegando lá. Como tropeiros de cavalos e mulas. "Vão regressar às suas terras no próximo mês de setembro, pois é nessa época que os pastos se apresentam melhores no sertão, facilitando a condução dos animais adquiridos." Ou como o chacreiro Chico Penteado, "produzindo abundantemente o trigo, milho, algodão, feijão, arroz, amendoim, mandioca, melancia, abóbora, melão e todos os frutos europeus". "Mas o excessivo custo das mercadorias concorre para arruinar os agricultores. Pois, enquanto levam-lhes o produto de seus trabalhos, são eles obrigados a pagar suas roupas e seus confortos a preços exorbitantes. Os objetos mais baratos custam mais 100% que em Porto Alegre, havendo alguns cuja diferença sobe a 200 e 300%."

            "Pretende o Coronel Paulet estabelecer um correio entre Missões e Porto Alegre."

César Oliveira é o presidente da Comissão Estadual dos Festejos Farroupilhas do RS

          Sob a coordenação de Maria Marques, assessora de Culturas Populares, Tradição e Folclore da secretaria de Estado da Cultura a Comissão Organizadora dos Festejos Farroupilhas do ano de 2020 reuniu-se na Sedac, na tarde desta terça-feira, dia 3, na presença da secretária Beatriz Araujo e do adido cultural do RS, César Oliveira (da dupla Cesar Oliveira & Rogério Melo), para debater a escolha da presidência da comissão, a divulgação da chama crioula, que este ano será acesa em Canguçu, o regimento interno, o tema anual e a escolha do patrono dos festejos farroupilhas deste ano.

Na montagem: Reunião na SEDAC e Cesar Oliveira (acima) e Maxsoel Bastos (Abaixo e a esquerda)
            Estiveram presentes na reunião Além do Adido Cultural Cesar Oliveira (escolhido Presidente da Comissão), a Secretária Beatriz Araújo, a Coordenadora Maria Marques, Léo Ribeiro de Souza (pela Maçonaria), Maxsoel Bastos de Freitas (escolhido vice-presidente), Giovani Tubino (Representando a Prefeitura de Porto Alegre), Edson Fagundes (Edinho - Coordenador da 1ªRT), Ana Fagundes (Guiga - RS Criativo) além de outros componentes indicados pelo decreto nº 55.032, de 5 de fevereiro de 2020. que alterou o Decreto nº 45.816, de 14 de agosto de 2008, que instituiu, no âmbito das comemorações alusivas à Revolução Farroupilha, no Estado do Rio Grande do Sul, os Festejos farroupilhas.

          A Comissão Estadual de que trata este artigo será integrada por representantes dos seguintes órgãos e entidades:

I - Secretaria da Cultura, que a coordenará;
II - Gabinete do Governador;
III - Secretaria da Casa Civil;
IV - Secretaria de Comunicação;
V - Secretaria da Educação;
VI - Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo;
VII - Secretaria da Administração Penitenciária;
VIII - Brigada Militar;
IX - Corpo de Bombeiros Militar;
X - Polícia Civil; e 
XI - Instituto-Geral de Perícias - IGP.

     Serão convidados a participar da Comissão Estadual de que trata este artigo representantes dos seguintes órgãos e entidades:

I - Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul - FAMURS;
II - Movimento Tradicionalista Gaúcho - MTG;
III - Prefeitura Municipal de Porto Alegre; e

IV - Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional do RS - OABRS.

terça-feira, 3 de março de 2020

Por que o tema "200 anos da chegada de Saint Hilaire no RS" merece atenção especial - Parte VI

NA ZONA SUL

        Saint-Hilaire não desceu do rio Jacuí através das estâncias do rio Camaquã até a várzea do São Gonçalo. Inversamente, encontrava-se na vila de Rio Grande quando teve oportunidade de subir até àquela várzea, no iate e em companhia do empresário António José Rodrigues Chaves, português de nascimento e então com residência e charqueada nas cercanias de São Francisco de Paula.

     "A viagem foi muito agradável. O Senhor Rodrigues Chaves é um homem culto, sabendo o Latim, o Francês, com leituras de História Natural, conversa muito bem".

      "Diante da charqueada do Senhor Chaves estendem-se vá¬rias fileiras, compridas, de grossos paus fincados na terra, com varões transversais destinados a estender a carne a secar. A carne-seca não se conserva mais de um ano: é exportada principalmente para o Rio de Janeiro, Bahia e Havana, onde serve de alimento para os negros".

      "A mesa de meu hospedeiro é farta. É principalmente a carne de vaca que se apresenta em feitios variados; contudo temos pão e vinhos às refeições".

      "Esta região pertence a charqueadores, que aí recebem, sem a mínima dificuldade, o gado criado nas gordas pastagens situadas ao sul do Jacuí. Há entre eles homens muito ricos. Há atualmente dezoito charqueadas nessa paróquia, e a média de animais abatidos por ano é de cerca de vinte mil".

      "Fui hoje com o Senhor Chaves à aldeia (Pelotas), viajando em cabriole descoberto. Nada tão belo como'a região por nós atravessada. Nos pomares, na maioria muito grandes, são cultivadas laranjeiras, pessegueiros, parreiras, legumes e algumas flores".

     "A aldeia conta para mais de cem casas, construídas segundo um plano regular de edificação. As ruas são largas e retas. Não se vê uma palhoça sequer e tudo aqui anuncia abastança. Os homens que encontrei achavam-se vestidos com asseio e vi várias lojas sortidas de mercadorias diversas. Operários e principalmente negociantes constituem a população."

     "Muito significativo o seu registro a respeito dos escravos. Embora venhamos a saber, depois, que o Senhor Rodrigues Chaves era um homem perfeitamente imbuído dos ideais do liberalismo, com tendência republicana e franco adepto da abolição da escravatura, seu comportamento diante dos negros refletia a mesma insensibilidade já observada de um modo geral entre os sul-rio-grandenses".

     "Nas charqueadas os negros são tratados com rudeza. O Senhor Chaves, tido como um dos charqueadores mais humanos, só fala aos seus escravos com exagerada severidade, no que é imitado por sua mulher; os escravos parecem tremer diante de seus donos".

     "Há sempre na sala um pequeno negro de dez ou doze anos, cuja função é ir chamar os outros escravos, servir água e prestar pequenos serviços caseiros. Não conheço criatura mais infeliz que essa criança. Nunca se assenta, jamais sorri, em tempo algum brinca! Passa a vida tristemente encostado à parede e é frequentemente maltratado pelos filhos do dono. À noite chega-lhe o sono e, quando não há ninguém na sala, cai de joelhos para poder dormir. Não é esta casa a única que usa esse impiedoso sistema: ele é frequente em outras."


    Provavelmente esteja aqui localizada, no tempo e no espaço, a origem da lenda e mito do Negrinho do Pastoreio, arquétipo a que se reportam os humildes maltratados pelos poderosos. Era uma vez um estancieiro com muito campo, muito gado, uma tropilha de cavalos de pêlo tordilho, muitas onças de ouro e um filho. Tinha também um cavalo parelheiro e um negrinho escravo que, por ser de peso muito leve, é quem corria esse baio nas carreiras. Tendo perdido uma carreira, por castigo o Sinhô manda que ele vá pastorear a tropilha de cavalos tordilhos, não deixando nenhum escapar. 

       O filho do Sinhô espanta a tropilha e, em meio à noite escura, o Sinhô dá o castigo do negrinho ir procurá-la. Ele pega um toco de vela no oratório da estância, sai peio campo e, à medida que os pingos da vela respingam, tornam-se outras tantas velas que atraem a tropilha. O filho do Sinhô torna a espantar a tropilha e, como último castigo, o Sinhô surra tanto o negrinho a ponto de matá-lo. Para não perder tempo, atira-o num formigueiro em vez de sepultura. No dia seguinte o Sinhô vai ver se as formigas já devoraram todo o corpo do negrinho mas tem a surpresa de vê-lo sair sãozinho, montar no parelheiro baio e subir para o céu levando a tropilha dos tordilhos. Sob a proteção de Nossa Senhora, o Negrinho do Pastoreio acha qualquer coisa que a gente tenha perdido, desde que se lhe acenda um toco de vela - Lembra Luiz Carlos Barbosa Lessa, sobre a Lenda do Negrinho do Pastoreio.

Nota de Falecimento - Itamar Sebastião de Mattos

      É com enorme pesar que comunicamos o falecimento de Itamar Sebastião de Mattos, o Tio Preto, no auge de seus 89 anos.  Tio Preto, como era conhecido e carinhosamente chamado, entrou para o tradicionalismo em Santa Catarina em julho de 1970, quando fez o primeiro Rodeio Crioulo no Campo nacional de Capivari.

      O Preto, de seu nome, é da hora que nasceu, contava ele. "Eu tinha um irmão mais velho do que eu, era mais claro, como tiveram dúvida no nome que iriam dar, se Itamar ou Sebastião, resolveram chamar de pretinho. Nos Rodeios na hora de laçar chamavam o Preto Velho! E com a idade mais avançada, passaram a me chamar de Tio Preto"  -  contava ele.

     Tio Preto viveu a vida como peão de tropa, ganhando para viver, tropeando, porque era o que existia na epoca, pois não tinha ainda o transporte de gado e cavalos. Precurssor do tradicionalismo em Santa Catarina, foi presidente do MTG/SC por 5 gestões (1986/1988 - 2000/2002 - 2002/2004 - 2008/2010 - 2010/2012) de dois anos.

     "O Tio Preto tinha orgulho em dizer que o número da sua carteirinha Tradicionalista era o nº 1, ele foi um dos precursores do Movimento Organizado em Santa Catarina. Era muito querido e admirado por todos nós e adorava receber tradicionalistas em seu rancho. Tive a oportunidade de ouvir suas histórias lá junto com o prendado do MTG em 2014, quando ele nos alojou no CTG do Preto. Vai fazer muita falta, ainda mais nesse momento conturbado em que mais precisamos de nossos esteios no Estado. Mas tenho certeza que ele será muito bem recebido pelo Patrão Celestial" - escreveu Vitor Parmeggiani/SC .

      "Meus sentimentos à família do Tio Preto, aos Amigos e Companheiros e Companheiras Tradicionalistas. Que sua alma descanse em paz nos braços do Patrão Divino. Suas entradas triunfais nós Congressos e Convenções, puxando a fila e levando a Bandeira do MTGSC serão sempre lembradas, bem como suas mensagens e orações" - Francisco Fighera/SP.
   

segunda-feira, 2 de março de 2020

A grata inspiração de Joseti Gomes nos faz um alerta - Flores de Maçanilha


Relíquia trazida por Israel Lopes mostra a contribuição de Teixeirinha para o Rádio Gaúcho

     Teixeirinha, além de grande cantor, compositor, foi um dos maiores comunicadores do Brasil. Começou nas rádios do interior, mas em Porto Alegre, como apresentador foi na RÁDIO GAÚCHA em 64. 

     Em 1969 esteve na RÁDIO DIFUSORA como atesta o Correio Rio-grandense, de 3/12/69, quando o IBOPE da emissora cresceu 500%. Em janeiro de 70 foi para a FARROUPILHA. Em 1981 voltou a Gaúcha, onde esteve até 83. Os horários do Teixeirinha e o Grande Rodeio, já apresentados por Darcy e Menezes, eram os CAMPEÕES de AUDIÊNCIA. Em São Paulo, o grande campeão era o PROGRAMA ZÉ BETTIO, na RECORD. 

     Quem se propuser a escrever a HISTÓRIA DO RÁDIO NO GRANDE DO SUL obrigatoriamente terá que colocar esse nome com letras grandes:TEIXEIRINHA, O GAÚCHO CORAÇÃO DO RIO GRANDE. 

por: Israel Lopes
Escritor, pesquisador e Advogado

Sobre o fim da primeira temporada - Por que parou o Identidade Gaúcha?

Hora de dar um, "Até Breve!"
          Bueno amigos, entramos no mês de março e esta é a primeira semana sem o programa que tem o DNA da gauchada, que entrava no AR as terças, quartas e quintas, das 8h às 10h,pela rádio Quero-Quero e, concomitantemente, pela rádio comunitária Acácia FM, 87.9 - do CONCEC - Conselho Cultural Educativo e Comunitário do jardim Algarve, em Alvorada. Foram quase dois anos assim. Pra ser mais exato, 254 programas. Mais de 200 entrevistados de cidades gaúchas, pelo Brasil e  pelo mundo. A apresentação? Rogério Bastos e Liliane Pappen.

          Para montar um programa que fosse atrativo (não só uma voz e música) produzimos quadros contando com mais de 13 vozes, vindas de diversos lugares do estado. Léo Ribeiro de Souza, entrava na abertura pautando o programa com seu "Repontando Datas". Seu Severino Moreira (coma Dona Alice ajudando a produzir) vinha com o especial "Medicina Campeira e Povoeira", dando dicas através de seu livro "Os chás e a fé" que lançou pela Martins Livreiro.

           Em cada região do estado tinha um correspondente: 
Litoral: Gilmara Silveira (Ex-prenda do RS e Advogada)
Fronteira: Diellen Soares (Ex-prenda Regional e RP)
Missões: Daiana Dal Ros (Ex-prenda do RS e Jornalista)
Central: Ticiana Leal (Ex-prenda Regional e Jornalista)
Planalto: Igor Gava (Ex-peão Regional e Jornalista)
Serra: Douglas Uiliam de Quadros (Ex-peão do RS)
Zona Sul: Priscilla Fonseca (Ex-prenda regional, Professora de Educação Física)
Região Carbonífera, com Renata de Cássia Pletz e seu Reminiscencias 



         Além dos comentaristas
         Anderson Hartmann, Diogo Giovenardi e Leandro de Araujo

       Fizeram parte do time: Andréa Cavalheiro, Juliano Moreno, Cristiane Gomes (Portugal), Fabinho Nascimento (Tome tento) e Cristiano da Silva Barbosa. Não podemos esquecer a Diane Moraes com as dicas de IRPF.

Completavam a programação, os ouvintes e suas características:
   Jeandro Garcia e as polêmicas (além de grande contribuição em marketing digital);
   Elisa Motta e suas aulas de danças com o Paixão (Elisa é professora de história e "outlander");
   Valter Fraga Nunes e o Zoreia, sempre dando dicas de tropeirismo;
Eagro Muller e suas "tiradas geniais". Aline, Anderson Salles, Cris e o Sandro, Gilson Passos o Cariucho, Daniel Zardo, Marilene Huff e tantos outros que costumávamos acordar e chamar pro programa. Regiane Ferreira Batista, em São Mateus/PR, Scheyla Nunes, da Tchê 52, em Balneário Camboriú/SC, os amigos dos MTGs do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina... A dinda Míriam Valim, não podemos esquecer que todos os dias, praticamente obrigava Léo Ribeiro a escutar o Programa. Carlos Pimenta e a Débora, nossos padrinhos que diariamente estavam na escuta, como o Jacques Zilberstein, da Gaudério Veículos. As belas paisagens que recebíamos em fotos da querida Dona Odila Savaris. 



       A música de abertura do programa e cortina musical ficou por conta de Tiago Cambona, a quem devemos um agradecimento mega especial. O Papai Tiago Cambona (que ao lado da Aline, agora tem que cuidar do jovem Martin). As vozes de Alexandre Brunetto, Igor Gava e Odilon Ramos abriam alguns quadros.

         O programa começou despretensioso, e foi ocupando um espaço na grade radiofônica da web e crescendo a cada dia. Transmitimos um Congresso de Cultura, direto de Bento Gonçalves, entrevistamos no estúdio nomes como Luiz Carlos Borges, Carlos Cirne, Giovani Tubino, as duas chapas concorrentes ao MTG em 2020, Diego Muller, Alci Vieira Junior, Daniel Hack, dos Serranos, Henrique Costa Fagundes, Vanessa Welter (programa 100, pra falar em Turismo no RS), Jatir Delazzari, Leandro Berlesi, Alexandre Brunetto, Alan da Veiga, Juliano Eloy, Tiago Cambona, João Lucas Cirne, Andre Munari, Jadirzinho, Brodinho, Leda Salvi (um programa no colégio de Surdos, Lilian Mazeron), Marco Aurélio Alves (era presidente do CEC), Lucia Brunelli, Marco Aurelio Angeli e Valter Fraga Nunes, Comissão Gaúcha de Folclore, Alvaro Franco (MinC), Micael Feliciano (Peão do RS), muitos patrões de CTGs tiveram espaço no programa, prendas regionais, estaduais e da CBTG, os cantores Jean Kirshoff e Analise Severo, o vereador de Porto Alegre, João Bosco Vaz, Fernando Augusto Espíndola, Dom Camillo e muitos outros amigos. Mais, aqueles que conversamos por telefone, como o Presidente da Assembleia Gaúcha, Luis Augusto Lara e ex-governador Germano Rigotto.
Alguns dos programas em que recebemos as visitas aqui em nosso rancho. No Rancho dos Bastos.
Cuia presente da TCHÊ 52 de Camboriú
          Uma lição: Programa que quer atingir seus objetivos tem que ser produzido com carinho, estudado, pensado e, jamais, jogado no AR contando com a experiência somente de quem apresenta. Tem que ser feito pensando no ouvinte (se ele quer escutar música, ele selecional no Spottfy, Deezer, ou em outra plataforma). E o Identidade Gaúcha trazia consigo o DNA, sim, carregava a informação genética de um povo criado de forma diferente do restante do país, como citou Auguste de Saint Hilaire, quando por aqui passou em 1820. 

          Fazer um programa gauchesco, com teor regionalista do sul do Brasil, mas com um conceito diferenciado. Essa era nossa ideia. Agora, chegou ao final da primeira temporada. Lá se foram 254 programas. A Lili tem um TCC para terminar, temos umas lidas para fazer, mas já estamos estudando um Identidade Gaúcha diferenciado para vocês. Vem com novidades. Porque o Identidade Gaúcha não é somente um programa, ele é um conceito de interatividade, feito pelos ouvintes e internautas.