segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A Origem do Lenços e a sua Importância na Indumentária Gaúcha - Parte IV

por Maxsoel Bastos de Freitas


     Segundo o escritor castelhano Fernando O. Assunção o lenço usado pelo gaucho argentino tinha vários usos. Geralmente colocado na cabeça, amarrado a ele, à moda marinheiro ou corsário ou amarrado sob o queixo, sempre sob o chapéu, ou como uma faixa para prender os cabelos compridos. No primeiro caso, serviu como chapéu ou rede, que o homem da vila, rural ou urbano, espanhol, gostava de usar para manter-se cobertos e protegidos da poeira e do sol.

     Esta maneira de usá-lo de acordo com Assunção é uma herança de marinheiros e camponeses peninsulares.

     Para Fernando O. Assunção outro modo de uso, também de herança camponesa com reminiscências árabes, tinha por finalidade proteger a cabeça, as bochechas e o pescoço do sol durante o dia e, para os ouvidos, do orvalho e do frio no início da manhã e do pôr do sol; também da chuva de inverno, vento e frio. 

     O lenço como distintivo político, já foi utilizado de um lado e do outro das margens do rio Uruguai. Na Banda Oriental, aparece o lenço vermelho dos colorados seguidores de Frutuoso Rivera e o lenço branco dos nacionalistas de Oribe. Na Argentina, os colorados de Juan Manuel Rosas combatiam ferozmente os azules e blancos da oposição provincial, anti-portenha.

      Para contextualização devemos lembrar que o Gaúcho não é apenas um indivíduo natural do Estado do Rio Grande do Sul. O Gaúcho é o homem cavaleiro das Américas, que recebe na Argentina e no Uruguai o nome de Gaucho, no Brasil de Gaúcho, no Chile de Guaso, na Venezuela de Ilanero e no México de Charroe. 

      O Gaúcho é um homem ligado ao campo e ao gado; é um homem que se forjou para enfrentar a intempérie, o vento, o frio, a chuva e tomar conta dos animais. Ele que no inicio de sua formação era um caçador, tornou-se um verdadeiro parceiro do sistema ecológico. O Gaúcho, acostumou-se a viver no campo ao ar livre, sob o lombo do cavalo. Temperou sua formação no frio e no calor do campo aberto. 

      O homem Gaúcho, antes chamado de vago ou gaudério, nasceu nas fronteiras da Argentina com o Uruguai e com o extremo sul do Brasil. É um produto da miscigenação indígena com luso-brasileiros e espanhóis. Suas roupas eram e precisavam ser funcionais, reflexos de uma origem nômade.
O lenço vem acompanhando a história do gaúcho e do Rio Grande desde a sua colonização.

      Com a fundação das missões pelos padres Jesuítas , foram então introduzidos os tecidos, pois até então os índios fabricavam suas roupas e outros objetos de couro de animais. Os tecidos eram utilizados para a confecção de roupas que passaram a usar conforme severa moral jesuíta, entre elas a camisa, calções europeus, o tipoy que era um vestido usado pelas índias, e o chiripa, usado pelos índios.

      A colonização europeia, no sul do continente em especial do lado direito da margem do rio Uruguai, trouxe consigo roupas mais requintadas como botas, ceroulas, algumas espécies de gravatas, casacos e entre outros.

      Quando observamos os parâmetros históricos podemos concluir que o lenço atado ao pescoço pode e deve ter surgido da evolução do lenço usado como gravata pelos europeus. Sua maior afirmação ocorreu quando foi adotado politicamente como designativo de cor partidária até o modo de atá-lo ao pescoço, surgindo assim o lenço gaúcho, atado ao pescoço, solto ao peito. Do seu uso, passou a ser instrumento de identificação; companheiros ou inimigos eram reconhecidos a distância pela cor dos lenços.

     Neste contexto, os farrapos que lutaram contra o Império do Brasil de 1835 a 1845, usavam o lenço vermelho, atado de maneira própria como símbolo de seu grupo. Neste particular, os aspectos históricos registram que os farrapos mandaram confeccionar alguns lenços personalizados nos Estado Unidos. De acordo com  Apolinário  Porto Alegre o pedido foi feito no dia 10 de maio de 1842. 

      Se há ligação ou não, com a escolha dos Estados Unidos, para confeccionar os lenços, cabe frisar que a maçonaria vermelha, de origem francesa e de feição republicana, que tem a divisão dos três poderes, tinha muita força nos Estados Unidos, assim como na jovem república rio-grandense e no Prata, visto que muitos de seus lideres eram maçons.

      Os primeiros lenços encomendados que chegaram pelo porto da cidade de Rio Grande, foram queimados pelas forças imperiais ainda na alfândega dentro de seus próprios caixotes. Por outro lado, alguns exemplares que vieram por terra, conseguiram chegar no acampamento volante em terras de Manuel Moura. Estes exemplares eram lenços de seda, estampados no centro com emblemas e legendas, celebrando os feitos e ficaram conhecidos como “lenços farroupilhas”, dos quais ainda existem alguns exemplares em museus e em coleções particulares.

      O Lenço Farroupilha  possui uma simbologia para o estado do Rio Grande do Sul, por conter o Brasão de Armas (Símbolo Oficial). O lenço farroupilha foi encomendado a partir de Montevidéu no Uruguai para uma confecção nos Estados Unidos por intermédio de Bernardo Pires de Oliveira, apontado como o autor dos desenhos. 

      Em todos os lenços farroupilhas, conhecidos, aparecem as letras S. G. C., iniciais de Salve Grande Continente, segundo Alfredo Varela. Um novo exemplar de modo posterior foi confeccionado na Europa, na França ou na Alemanha e apenas chegou ao Brasil após assinada a paz da revolução farroupilha. 

      Novamente os lenços como bandeira ideológica voltam ao cenário de lutas no Rio Grande do Sul nas revoluções de 1893 e 1923, nestas contendas, enfrentaram-se os lenços brancos de republicanos ou ainda chamados de “chimangos” e os lenços vermelhos dos federalistas ou “maragatos”, até os dias de hoje, conhecidos, como os mais tradicionais. 

     Com o surgimento dos movimentos em prol do tradicionalismo e, com a consequente fundação do primeiro centro de tradições gaúchas, os gaúchos e tradicionalistas passaram a ostentar os lenços de tradição das suas famílias.

Conclusão 

     Na lida de campo, no dia-a-dia, o lenço continua a ser usado, por dentro da gola da camisa, como proteção para não suja-lá em dias de poeira, e também para limpar o suor do rosto se necessário.

     A simbologia e o uso dos lenços continuam forte na cultura gaúcha. 

     Quando, amarramos um lenço colorado e um lenço branco, juntos, temos neste ato o símbolo da paz eterna entre os gaúchos, neste ato rogamos para que nunca mais se derrame sangue de outro irmão gaúcho.

       O lenço é a herança que trazermos e cultuamos como lembrança dos nossos ancestrais.

     Com base neste estudo podemos concluir que os lenços, como parte da indumentária gaúcha, tiveram sua introdução no sul do continente pela colonização europeia, trazidos tantos pelos espanhóis quanto pelos portugueses, mas tudo indica, pelo contexto histórico do processo de colonização, especialmente do Rio Grande do Sul e, também da região do Prata que a difusão do uso deste apetrecho como parte da indumentária do gaúcho chegou primeiro pelas mãos dos espanhóis e dai pelo seus usos e costumes acabou espalhou-se praticamente por toda a America.

      Cabe aqui mencionar, para uma maior reflexão, que os índios americanos apaches, conforme registros históricos pesquisados, também usavam um lenço amarrado ao pescoço da mesma forma que o gaúcho ainda usa. Estes índios habitavam o norte do México e, também, tiveram um amplo contato com os espanhóis durante o processo de colonização daqueles povos no decorrer do século XVI. 

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