quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O menino que voa - Kailon Jacob Pereira


 Kailon Jacob Pereira transformou o sapateio da chula em espetáculo, colecionou títulos e levou o nome de Lagoa Vermelha para além das fronteiras do Rio Grande do Sul

    Há momentos em que a tradição parece ganhar asas.

    Quando Kailon Jacob Pereira entra na roda, coloca o chapéu, ajeita a postura e encara o tablado, o que se vê não é apenas um jovem executando uma dança. É um corpo que desafia o chão, um sapateio que acelera, um salto que parece suspender o tempo e, por alguns instantes, transforma o chuleador em uma figura que literalmente parece voar.

Talvez por isso o título deste capítulo não pudesse ser outro: O menino que voa.

    Aos 17 anos, Kailon já construiu uma trajetória que muitos levam décadas para alcançar. Natural de Lagoa Vermelha, cidade reconhecida nacionalmente como referência da dança da chula e ao churrasco, ele integra o CTG Alexandre Pato e está ligado ao movimento tradicionalista há mais de 10 anos. Começou a competir na chula ainda nas categorias pré-mirins.

    O menino que começou pequeno foi crescendo diante da lança e dos desafios, do sapateio e dos aplausos. E, com o passar dos anos, seus passos foram ganhando precisão, velocidade e personalidade. 

Uma coleção de títulos

A caminhada competitiva de Kailon revela uma sequência expressiva de conquistas.

No 38º ENART, em 2025, realizado em Santa Cruz do Sul, ele chegou ao lugar mais alto do pódio na Chula, superando seus qualificadíssimos concorrentes. A conquista colocou o nome de Kailon entre os grandes vencedores de uma das principais competições artísticas do tradicionalismo gaúcho.

    Poucos meses depois, veio outro momento marcante. No 36º Rodeio Crioulo Internacional de Vacaria, em fevereiro de 2026, Kailon conquistou o título de campeão da Chula Juvenil. Mas a história já vinha sendo escrita antes. No 16º FENART – Festival Nacional de Arte e Tradição Gaúcha, realizado em Cristalina, Goiás, em julho de 2025, Kailon foi campeão da Chula Juvenil. A presença no FENART não era novidade. Em 2023, ainda na categoria juvenil, Kailon já havia chegado ao segundo lugar no festival nacional.

E veio o Juvenart.

    Em 2025, ele conquistou seu primeiro título na competição. Em 2026, repetiu a façanha e tornou-se bicampeão do Juvenart, encerrando sua trajetória na categoria juvenil com duas conquistas consecutivas. É uma sequência que ajuda a compreender a dimensão de sua trajetória: ENART, FENART, Rodeio de Vacaria e Juvenart. Em diferentes palcos e diante de diferentes públicos, o mesmo menino, a mesma lança de desafio e a mesma dança.

O salto que parece voo

A chula exige muito mais do que habilidade nos pés.

Há ritmo, equilíbrio, concentração, domínio corporal e uma relação precisa com o espaço. O chuleador precisa fazer do movimento uma linguagem. Cada sapateio tem sua marca; cada giro precisa encontrar o tempo da música; cada salto exige controle sem tocar na lança. No caso de Kailon, os movimentos aéreos se tornaram uma das imagens mais marcantes de sua apresentação.

Ele gira, salta, cruza o espaço e retorna ao chão como se a gravidade fosse apenas um detalhe.

É nesse instante que nasce a imagem do menino que voa.

Mas o voo de Kailon não começou no palco. Antes de cada apresentação existe uma rotina de ensaios. E há algo particularmente bonito nessa história: mesmo depois de alcançar o topo, Kailon começou também a olhar para quem está começando. Além de competir, passou a ministrar aulas e acompanhar o desenvolvimento de novos jovens chuleadores, ajudando a transmitir aquilo que aprendeu.

Os pés no chão

    Talvez a melhor definição de Kailon esteja justamente no contraste. Ele voa no tablado, mas mantém os pés no chão na vida. A fama passageira dos aplausos não parece ser o centro de sua caminhada. Por trás dos troféus existe um jovem que reconhece a importância de quem caminha ao seu lado — especialmente a família, os professores, o CTG e todos aqueles que ajudam a manter viva a tradição.

    E, acima de tudo, existe a fé.

    Em sua caminhada, a gratidão a Deus aparece como um valor que acompanha as conquistas. O troféu pode ser levantado pelas mãos do campeão, mas a vitória, para Kailon, é compartilhada com aqueles que o sustentam quando as luzes do palco se apagam. É uma maneira de compreender o sucesso que combina com a própria essência da tradição: ninguém dança sozinho. 

"Só tenho a agradecer... A Deus por me proporcionar essa chance e me abençoar nesses dias. Agradeço do fundo do meu coração meus pais que são meus alicerces e me incentivaram em momentos em que até eu duvidei da minha capacidade e não medem esforços nenhum para me ver feliz, amo vocês, obrigado por tudo! Ao Eduyri Pereira, meu irmão, meu melhor amigo que está sempre torcendo por mim independente da situação, e é verdade que as vezes acabamos nos desentendendo mas, mesmo assim, tu sempre vai ser meu porto seguro, você meu mano é uma inspiração para mim e não consigo me imaginar sem seu apoio, tenho orgulho de poder falar que tenho um irmão como você, obrigado por tudo!" - agradeceu Kailon em suas redes sociais.


De Lagoa Vermelha para o mundo

    Em setembro de 2026, a trajetória ganhou uma dimensão internacional. Kailon atravessou as fronteiras do Brasil e levou a chula até a Times Square, em Nova York, onde se apresentou durante o Dia do Gaúcho, em 20 de setembro, integrando a Caravana Gaúcha da Costa Leste, que percorreu sete estados norte-americanos. A apresentação representou uma nova etapa de uma caminhada que começou ainda na infância, em Lagoa Vermelha.

    É uma imagem poderosa: o menino que aprendeu a dançar chula em sua terra natal, onde a modalidade faz parte da identidade cultural da comunidade, agora sapateando diante das luzes de uma das esquinas mais conhecidas do mundo.

    E talvez seja essa a grande história de Kailon Jacob Pereira. Não apenas a história de um campeão, mas a de um jovem que aprendeu cedo que tradição não é algo parado no tempo. É movimento. É transmissão. É dedicação. É fé. É família. É comunidade.

    E é também a coragem de saltar. Kailon salta. Gira no ar. Por um instante, parece voar. Depois, volta ao chão — exatamente onde sua história começou. Com os pés firmes na tradição, os olhos voltados para o futuro e o coração agradecido a Deus e àqueles que fizeram parte de sua caminhada. O menino que voa continua dançando. E, a cada salto, leva consigo o nome de Lagoa Vermelha, o orgulho de sua família, amigos, admiradores e a força de uma tradição que aprendeu a atravessar fronteiras.


Nota do BLOG: Um jovem que tive a grata satisfação de conviver, juntamente com seu irmão, na viagem aos Estados Unidos. Humilde, educado, sempre ao lado do mano, com certeza orgulhou sua familia, cidade e todos que sempre acreditaram em seu talento. Ele fez questão de mandar a foto que tiramos juntos no III Encontro Internacional da Tradição Gaúcha em 2017, no CTG Alexandre Pato - Em Lagoa Vermelha.

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